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Mostrando postagens de 2020

Quem me vê assim desnuda

Quem me vê assim desnuda  não imagina o quanto já andei na moda, o quanto já andei na linha, quantos ritmos dancei, quantos temperos provei, quantos idiomas e teorias já escutei, quantos filmes, shows e peças de teatro assisti, quantos museus visitei, quantas opiniões ouvi e com quantas me importei. Quem me vê assim desnuda nem imagina com quantas cores já me pintei, com quantas formas em mosaico me montei e na tentativa de me formar me deformei. Quem me vê assim desnuda nem imagina que um dia em cacos me estilhacei e que por debaixo deles foi pele, luz e sombra que encontrei, que acolhi e que abracei.

de que serve a poesia?

As poesias começaram a surgir de mim sem pedir licença como um adorninho de uma nova consciência E eu fiquei sem saber de que serviria poesia em terra de quem nem dá bom dia, De gente que vive sob efeito de anestesia. E então entendi pouco a pouco que o poeta é mesmo o louco que até flor enxerga no esgoto

A Flauta Transversal

Uma oitava acima Uma oitava abaixo E para a última, e mais estride nte oitava: Inspiras profunda mente senão travas Quando inspiras, aqueces o que lhe entra frio Quando expiras, num sopro caloroso preenches o vazio Que instrumento verdadeiro Que som celestial Inspira e expira Eis a flauta transversal Melodioso som de passarinho, Um samba dolente a acompanhar , Tagarelo e choroso chorinho Ou barroco Sebastian Bach E de tanto lhe tocar transpira na forma de suor condensado E de seu metal escorre o que já não lhe serve afora Agora está aquecida e seu som aperfeiçoado Depois de tocada, É cuidadosamente trimembrada E como jóia preciosa vai descansar No aconchego da caixinha aveludada

O Veleiro Valentim

Vivia em alto mar um veleiro vermelho e ligeiro. O seu nome era Valentin e seu sonho: veleja r o mundo inteiro. -Saiam da frente, abram espaço pra mim. Sou o veleiro mais veloz e valente Valentim E passava tirando onda, o veleiro impaciente! Não se importava com ninguém, só queria chegar na frente! Seus pais lhe diziam que para velejar era preciso  paciência e conhecimento: - Você tem que parar para descansar , observar o céu, as marés e o vento. Seus amigos, com muita paciência,  paravam para ouvir os veleiros com mais experiência. Que falavam das das fases da lua, dos movimentos dos ventos, E também das mudanças das marés,  das estrelas e do tempo. E disseram ao Valentim que passava à toda pressa: Juntos podemos ir mais longe. Vêm com a gente, vamos nessa?! Mas Valentim, tão apressadinho, não deu importância  e seguiu sozinho... E sozinho navegou, até que veio um vento muito forte que o levou em direção a costa e foi parar num mangue ao norte! A...

Máscaras, maquiagens e roupas apertadas

Primeiro dia de aula: Será que a professora irá com a minha cara?  Fim do primeiro semestre: Será que passei na prova?  O frio na barriga  para ser escolhida pelo time de futebol: E se eu sobrar? (e sobrava) O primeiro fora: O que há de errado em mim? A primeira entrevista de trabalho:  Será que eu causei boa impressão?  A ligação dizendo que não foi aprovada para a vaga: Não sou boa o suficiente? A outra ligação dizendo que foi aprovada: Agora preciso provar que sou quem disse ser... É só uma mascarazinha aqui,  uma basezinha de leve pra tampar as imperfeições! Às vezes também calçamos um sapato apertado, uma roupa que sufoca um pouquinho mas o importante é atender às exigências do mercado! E assim nos afastando cada vez mais de nós mesmos e quando nos damos conta, nem sabemos mais quem somos e corremos o risco de morrer sem sabê-lo. Um dia, por sorte, descobriremos que mais importante que ser aceito é aceitar-se e amar-se.

Contemplação

Comecei enfim a livrar-me das abstrações e entregar-me contemplativamente aos fenômenos. Aproveitei cada momento para observar tudo ao meu redor com mais atenção, curiosidade e espanto. Acredito que esse olhar, que em princípio chamei de meditação contemplativa,  me levou quase que involuntariamente à escrita e nela encontrei um solo fértil e seguro para pisar, percorrer, explorar, sentir, seguir, saber e ser. Um lugar onde perco a noção do tempo pois sou criança descalça e descabelada experimentando a natureza e a sua força divina e ao mesmo tempo buscando equilibrar-se sob a força gravitacional. Nesse movimento livre e desinteressado, o nada é o tudo que me preenche e apenas a natureza me basta.

Mariana y el árbol de manzana

Mariana era una chica muy guay. Solo se aburría si le faltaba el wi-fi. De lunes a viernes era siempre igual: se despertaba, iba a la escuela, y después con sus amigos subía a los árboles y jugaba rayuela. Una horita más tarde, ya no se escuchaba nada, cada uno tomaba su móvil y se ponía de cabeza agachada. Cuando llegaban las vacaciones, Mariana iba a la granja de su abuelita. A ella le encantaban sus empanadas y la naturaleza pero no había internet. ¡Qué desdicha! Sin wi-fi y lejos de sus amigas, su abuela la recibió con muchos besos, quesos y golosinas. Un poco feliz y un poco aburrida salió para explorar la naturaleza y a ver si encontraba alguna actividad divertida. Caminó por los huertos, trepó en un árbol, pero luego se aburrió y decidió bajar: - ¡Qué pesado y qué fastidio! ¡Sin mis amigos no puedo jugar! Siguió caminando y al cruzar un árbol de manzanas rojas, tropezó en algo duro y paró para comprobar que era lo que había debajo de las hojas. En el suelo, de rodillas, empujó l...

o botecão

 Hoje é sábado, meu dia de escapar um pouquinho da rotina e finalmente me sentar para escrever. Acordei um pouco mais cedo do que de costume e fui fatalmente surpreendida com as portas do meu café preferido fechadas. Sem muito tempo pra pensar, fui direto ao único café que estava aberto, mas logo percebi que era o que nós brasileiros chamamos de "botecão" ou "sujinho". Aborreci-me com o menu simples, na verdade, nem menu tinha. As chaves da casa de banho tinha que pegar no balcão, a senha do wi-fi era um código gigante que tive que tirar foto do celular. Tudo fora da minha zona de conforto. Mas de repente, fui surpreendida por uma coisa me mudou o meu olhar para este café: As pessoas. Elas entram e dão bom dia a todo momento,  fazem piadas,  riem alto, se relacionam.  Me senti bem melhor aqui no "botecão".

encontro marcado

Não há dúvidas de que o primeiro encontro dá frio na barriga! Você não sabe muito bem por onde começar, muitas ideias vêm na cabeça e movida pelo nervosismo acaba  dizendo coisas que que não devia. Pode ser bem constrangedor. Mas, por sorte, existe o segundo, o terceiro e o quarto encontro e pouco a pouco a gente vai se sintonizando, trazendo forma para a relação e o desejo de se ver mais e mais só aumenta.  No entanto,  no meio dessa ânsia toda, alguém na relação decide fazer um charminho, dar aquele gelinho pra não parecer tão fácil. E então vem o grande dilema: quem dos dois vai ceder? E volta aquele friozinho na barriga, uma mistura de ansiedade com inseguranças que só poderão ser sossegadas ou confirmadas numa proxima conversa. .. Você não aguenta mais tanta agonia e decide marcar um próximo encontro. É isso! Te vejo no sábado às 10h no lugar de sempre! Dessa forma, ou desisto de você de uma vez por todas, ou na melhor das hipóteses, dou um fim em você meu con...

Pessoas são livros vivos

Pessoas são livros vivos Com crenças, sabedorias, memórias,  Pensamentos, filosofias e histórias Pessoas são livros vivos De contos, fábulas, romance e poesia Ou até comédia com nuance de melancolia Pessoas são livros vivos Esperando serem lidos na prateleira, escolhidos ao pé da cabeceira ou fechados pegando poeira  Pessoas são livros vivos Pra curar, divertir e ensinar Os leitores mais atentos que por elas passar

A História eem fim de Nimbos

Escrevi essa história infantil há 12 anos! Foi um trabalho do meu primeiro ano na faculdade de letras. Desde então, ela ficou na gaveta mas não esquecida, sempre me recordei com carinho dessa minha criação e hoje tive finalmente a coragem de contá-la para vocês e para suas crianças. Especialmente hoje, também tive o prazer de aprensentá-la  pessoalmente para três lindas crianças (sendo uma delas o Meu filho rs). Ver a satisfação, atenção e participação deles durante a contação, foi pra motivo de gratidão imensa e confirmação de que nossos talentos não fazem sentido se guardados nas gavetas... vamos compartilhar 🙏🏽❤️ #historiainfantil #contacaodehistorias #gratidão

A Casa da Fuseta

A casa da Fuseta não tem eira nem beira Mas tem vista para o nascer do sol, para o mar e pr'amendoeira A casa da Fuseta não tem janela dianteira Mas da ventana lateral se vê a maré baixa e a cheia Na casa da Fuseta não tem piscina pra nadar Mas tem pássaros a cantar e um cavalinho que sempre muda de lugar A casa da Fuseta não tem luxo nem lareira Mas tem quintal para dançar com floreira e churrasqueira A casa da Fuseta se molha o dia todo no inverno e nenhum no verão Tem flores amarelas na primavera, folhas secas no outono e uma cor pra cada estação A casa da Fuseta é quadrada e sem graça Mas tem quintal, terraço, garça e comboio que sempre passa A casa da Fuseta não tem número nem porteira mas tem parreira e figueira Tem paisagem sorrateira e até cadeira pra contemplar a existência passageira

Uma lembrança verdinha

Flor pequenina

Ah menina! Se soubesses que és divina! Que tens em si o sol da vida,  Um brilho que fascina! Minha flor é pequenina, dizes... Se soubesses suas raízes!  As profundezas ocultas, as suas matizes... Mergulhe fundo não se amedronte! Toque onde não pode ser explicado. Escave, sinta e experimente! Atravesse o portal infinito e encantado De sol, de sonho  De sacramento risonho De fogo consumindo, de fato consumado Não há nada a temer. Isso tudo é sagrado! Isso tudo é você! 

Seguimos

Seguimos em frente Seguimos o  coração Seguimos o fluxo Seguimos sem direção Seguimos o curso Seguimos a intuição Seguimos a Deus Seguimos a tradição Seguimos a Deus? Seguimos a vida! Que vida seguimos? A vida que nos cega Por que nos cegamos?  Seguimos sem parar Seguimos sem tempo Seguimos no Instagram Seguimos sem pensar Por que aqui estamos? O que sentimos? O que sonhamos? O que sabemos? O que somos? O que seguimos? Aonde é que chegamos?!

Será Caranguejo ou Siri?

Olá meu caro amigo! Faz tempo que não te vejo! Responda-me por favor: És siri ou caranguejo? Quase nunca está parado Vive no mangue e anda de lado Que tanto fazes aí? Por favor, quero muito saber: És caranguejo ou siri? Corre, corre de ladinho Entra e sai do buraquinho Cinco patinhas em cada lado As duas primeiras com pegador És siri ou caranguejo? Responda-me por favor?! Lembrei-me que é de poucas palavras Esse meu crustáceo amigo Mas isso não é problema: Recorrerei a um bom livro! Por favor dê-me licença Meu leitorzinho camarada Vou estudar um pouco a ciência Para matar essa charada Todo Siri é caranguejo Mas nem todo caranguejo é siri Com calma e sem fraquejo Já, já quem és vou descobrir! Meu amigo é siri minha gente! Porque sempre anda de lado Caranguejo só anda lateralmente Quando se sente ameaçado Mas será que além disso Há uma outra diferença? Ser explorador não é difícil Mas exige muita paciência Espere um pouco, ele entrou na água Q...

Magic Words

Fora dos muros acadêmicos Longe da fissura verborrágica Encontro-me comigo mesmo Few words e acontece a mágica                  

Isolamento Social

Caminhava com os pés nos chão, A cabeça nas nuvens, Os nervos à flor da pele, O coração e a caneta nas mãos. Tudo estava de pernas pro ar. Da cabeça aos pés seguia o seu caminho Com os pés no chão, A cabeça nas nuvens, Os nervos à flor da pele, O coração e a caneta nas mãos Enquanto tudo estava de pernas pro ar Artist Liza Merkalova painted this piece for the Long Distance Art Series

Ritmo, rima e riso

Ao conhecer-te naquele pista de dança. Eu, que até então só dançava solos, me deixei ser conduzida pelo seu soltinho e de pulinho em pulinho fui soltando os antigos preconceitos  e abrindo-me de novos jeitos. Quando nos  beijamos pela primeira vez, foi de frente  para o palco com Arnaldo Antunes a nos testemunhar e a cantar "está consumado" . Dessa vez, era eu te guiando em meu excêntrico universo construído em cima do cimento da poesia concreta numa brincadeira musical indiscreta. Mas para além das danças e dos sons existia uma outra forte atração. Acho que no fundo no fundo, o que encontramos um no outro foi diversão. E entre rimas, ritmos e risos, fomos cantando, dançando e rindo neste imenso palco lindo.

Manifesto Artístico

Não tenho compromisso com a forma Não tenho compromisso com nada Não me importo com tamanho ou gêneros Escrevo o que me dá na lata Nada como escrever livremente Sem passar pelo crivo da revista Agora você não me pega Agora declaro-me artista

Sobre o Nascer do Sol ou Sunrise

Resolvi acordar cedo para assistir ao famoso nascer do sol. Resultado do experimento é que não quero mais parar de fazê-lo.  Como cientista natural que sou, cada dia observo uma coisa diferente e eis a minha importante contribuição científica: Descobri que se usa o verbo "nascer" para o seu aparecimento pois ele chega ao nosso mundo lentamente assim como um bebê na fase expulsiva do parto. É um "dar a luz" literal, porém, com uma sutil diferença: seu aparecimento acontece de baixo para cima e neste ponto preciso concordar que a língua inglesa foi mais denotativa na escolha do verbo "rise" que significa "subida", "elevação", Então, "sunrise" é a subida do sol. Só nasce para baixo quem está sujeito as leis da gravidade.

Minha sábia amiga Denise

Tinha eu 7 anos, me sentava atrás da Denise. Todos os dias, na hora de escrever o cabeçalho eu a cutucava e perguntava-lhe que dia é hoje. Ela, que por sua vez era uma menina muito  paciente, me respondia: 16, 17, 18, 19, 20... Com o passar do tempo, fui percebendo que a mesma lógica numérica que havia aprendido sobre contar se aplicava aos dias. Naquele momento e naquela sala de aula, aprendi que os dias eram contados.

Sobre escrever e se entregar

Pra escrever é preciso esquecer-se da pia de louça pra lavar, do chão sujo por limpar, das contas pra pagar, da dúvida gramatical que paira no ar. Essas coisas não tem nenhuma importância na escrita porque escrever é uma prática espiritual e a mesma sacralidade que se aplica ao ato sexual.

Um Instrumento de Aprendizado

Como instrumento de madeira é classificada Embora, hoje em dia, seja de metal Em partes e tons é trimembrada A majestosa flauta transversal Sua afinação é em "lá" estridente Um agudo ousado e desafiador Ou sopras precisamente Ou já bem desafinou As duas primeiras oitavas são confortantes Percorrem do melancólico ao fleumático  Mas a terceira! É colérica apavorante! Qualquer sopro inseguro leva ao fiasco Por isso, antes de levá - la aos lábios Respire profundamente e estabeleça uma conexão divina Só assim estarás pronto pra a flauta Só assim estarás pronto para a vida

Sobre pertencimento

Entro numa lanchonete qualquer do centro de São Paulo às 18h; sento-me ao "balcão" e peço um pão na chapa e um pingado enquanto a maioria dos clientes tem em suas mesas uma garrafa gelada de 600 ml. Um homem barbudo e grisalho que acabou de sair do trabalho senta-se do outro lado e pede alguma coisa que se eu fosse o(a) atendente não teria compreendido e é servido com uma dose de ypioca. Na TV, a novela das 6 bem baixinha. O som que prevalece é o burburinho dos casos e risadas de quem tem uma companhia á mesa. E eu, mesmo desacompanhada, me sinto acolhida por todos os casos, sotaques e sons desse lugar, sinto que poderia participar de qualquer uma das conversas como se os conhecesse de longa data. É um um sentimento inexplicável de pertencimento que por mais adaptada que eu esteja a outro lugar do mundo é só aqui que posso experimentar.

Pai, sol, suor e pão

Uma essência de suor misturado com óleo diesel. Esse era o cheiro do abraço mais esperado do dia. Chegava sempre no mesmo horário. Tão certo quanto o nascer do sol. E eu, que ainda nem sabia ver as horas. Organicamente pressentia que a sua chegada se aproximava. E então, me agitava rumo a janela, rumo a porta, rumo ao portão em um incontrolável êxtase infantil. Quando já impaciente dava as costas, lá ouvia o barulhinho das chaves e gritava o seu nome tão intensamente quanto corria em sua direção. Aquele abraço era tão importante quanto o calor do sol pra mim. Após beijar o seu rosto luminoso de suor. Sentia os meus lábios deslizarem um no outro com o óleo que recolhia. Uma vez ungida pela sua essência, descia de seu colo, abria a sua bolsa e avistava a marmita de lata enrolada num pano e, ao lado, o saco de pão quentinho abafado. Constância, certeza, sustento Sol, suor, calor e pão São ritmos, sentidos e sentimentos que de ti carrego desde então.