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Mostrando postagens de junho, 2020

Uma lembrança verdinha

Flor pequenina

Ah menina! Se soubesses que és divina! Que tens em si o sol da vida,  Um brilho que fascina! Minha flor é pequenina, dizes... Se soubesses suas raízes!  As profundezas ocultas, as suas matizes... Mergulhe fundo não se amedronte! Toque onde não pode ser explicado. Escave, sinta e experimente! Atravesse o portal infinito e encantado De sol, de sonho  De sacramento risonho De fogo consumindo, de fato consumado Não há nada a temer. Isso tudo é sagrado! Isso tudo é você! 

Seguimos

Seguimos em frente Seguimos o  coração Seguimos o fluxo Seguimos sem direção Seguimos o curso Seguimos a intuição Seguimos a Deus Seguimos a tradição Seguimos a Deus? Seguimos a vida! Que vida seguimos? A vida que nos cega Por que nos cegamos?  Seguimos sem parar Seguimos sem tempo Seguimos no Instagram Seguimos sem pensar Por que aqui estamos? O que sentimos? O que sonhamos? O que sabemos? O que somos? O que seguimos? Aonde é que chegamos?!

Será Caranguejo ou Siri?

Olá meu caro amigo! Faz tempo que não te vejo! Responda-me por favor: És siri ou caranguejo? Quase nunca está parado Vive no mangue e anda de lado Que tanto fazes aí? Por favor, quero muito saber: És caranguejo ou siri? Corre, corre de ladinho Entra e sai do buraquinho Cinco patinhas em cada lado As duas primeiras com pegador És siri ou caranguejo? Responda-me por favor?! Lembrei-me que é de poucas palavras Esse meu crustáceo amigo Mas isso não é problema: Recorrerei a um bom livro! Por favor dê-me licença Meu leitorzinho camarada Vou estudar um pouco a ciência Para matar essa charada Todo Siri é caranguejo Mas nem todo caranguejo é siri Com calma e sem fraquejo Já, já quem és vou descobrir! Meu amigo é siri minha gente! Porque sempre anda de lado Caranguejo só anda lateralmente Quando se sente ameaçado Mas será que além disso Há uma outra diferença? Ser explorador não é difícil Mas exige muita paciência Espere um pouco, ele entrou na água Q...

Magic Words

Fora dos muros acadêmicos Longe da fissura verborrágica Encontro-me comigo mesmo Few words e acontece a mágica                  

Isolamento Social

Caminhava com os pés nos chão, A cabeça nas nuvens, Os nervos à flor da pele, O coração e a caneta nas mãos. Tudo estava de pernas pro ar. Da cabeça aos pés seguia o seu caminho Com os pés no chão, A cabeça nas nuvens, Os nervos à flor da pele, O coração e a caneta nas mãos Enquanto tudo estava de pernas pro ar Artist Liza Merkalova painted this piece for the Long Distance Art Series

Ritmo, rima e riso

Ao conhecer-te naquele pista de dança. Eu, que até então só dançava solos, me deixei ser conduzida pelo seu soltinho e de pulinho em pulinho fui soltando os antigos preconceitos  e abrindo-me de novos jeitos. Quando nos  beijamos pela primeira vez, foi de frente  para o palco com Arnaldo Antunes a nos testemunhar e a cantar "está consumado" . Dessa vez, era eu te guiando em meu excêntrico universo construído em cima do cimento da poesia concreta numa brincadeira musical indiscreta. Mas para além das danças e dos sons existia uma outra forte atração. Acho que no fundo no fundo, o que encontramos um no outro foi diversão. E entre rimas, ritmos e risos, fomos cantando, dançando e rindo neste imenso palco lindo.

Manifesto Artístico

Não tenho compromisso com a forma Não tenho compromisso com nada Não me importo com tamanho ou gêneros Escrevo o que me dá na lata Nada como escrever livremente Sem passar pelo crivo da revista Agora você não me pega Agora declaro-me artista

Sobre o Nascer do Sol ou Sunrise

Resolvi acordar cedo para assistir ao famoso nascer do sol. Resultado do experimento é que não quero mais parar de fazê-lo.  Como cientista natural que sou, cada dia observo uma coisa diferente e eis a minha importante contribuição científica: Descobri que se usa o verbo "nascer" para o seu aparecimento pois ele chega ao nosso mundo lentamente assim como um bebê na fase expulsiva do parto. É um "dar a luz" literal, porém, com uma sutil diferença: seu aparecimento acontece de baixo para cima e neste ponto preciso concordar que a língua inglesa foi mais denotativa na escolha do verbo "rise" que significa "subida", "elevação", Então, "sunrise" é a subida do sol. Só nasce para baixo quem está sujeito as leis da gravidade.

Minha sábia amiga Denise

Tinha eu 7 anos, me sentava atrás da Denise. Todos os dias, na hora de escrever o cabeçalho eu a cutucava e perguntava-lhe que dia é hoje. Ela, que por sua vez era uma menina muito  paciente, me respondia: 16, 17, 18, 19, 20... Com o passar do tempo, fui percebendo que a mesma lógica numérica que havia aprendido sobre contar se aplicava aos dias. Naquele momento e naquela sala de aula, aprendi que os dias eram contados.

Sobre escrever e se entregar

Pra escrever é preciso esquecer-se da pia de louça pra lavar, do chão sujo por limpar, das contas pra pagar, da dúvida gramatical que paira no ar. Essas coisas não tem nenhuma importância na escrita porque escrever é uma prática espiritual e a mesma sacralidade que se aplica ao ato sexual.

Um Instrumento de Aprendizado

Como instrumento de madeira é classificada Embora, hoje em dia, seja de metal Em partes e tons é trimembrada A majestosa flauta transversal Sua afinação é em "lá" estridente Um agudo ousado e desafiador Ou sopras precisamente Ou já bem desafinou As duas primeiras oitavas são confortantes Percorrem do melancólico ao fleumático  Mas a terceira! É colérica apavorante! Qualquer sopro inseguro leva ao fiasco Por isso, antes de levá - la aos lábios Respire profundamente e estabeleça uma conexão divina Só assim estarás pronto pra a flauta Só assim estarás pronto para a vida

Sobre pertencimento

Entro numa lanchonete qualquer do centro de São Paulo às 18h; sento-me ao "balcão" e peço um pão na chapa e um pingado enquanto a maioria dos clientes tem em suas mesas uma garrafa gelada de 600 ml. Um homem barbudo e grisalho que acabou de sair do trabalho senta-se do outro lado e pede alguma coisa que se eu fosse o(a) atendente não teria compreendido e é servido com uma dose de ypioca. Na TV, a novela das 6 bem baixinha. O som que prevalece é o burburinho dos casos e risadas de quem tem uma companhia á mesa. E eu, mesmo desacompanhada, me sinto acolhida por todos os casos, sotaques e sons desse lugar, sinto que poderia participar de qualquer uma das conversas como se os conhecesse de longa data. É um um sentimento inexplicável de pertencimento que por mais adaptada que eu esteja a outro lugar do mundo é só aqui que posso experimentar.

Pai, sol, suor e pão

Uma essência de suor misturado com óleo diesel. Esse era o cheiro do abraço mais esperado do dia. Chegava sempre no mesmo horário. Tão certo quanto o nascer do sol. E eu, que ainda nem sabia ver as horas. Organicamente pressentia que a sua chegada se aproximava. E então, me agitava rumo a janela, rumo a porta, rumo ao portão em um incontrolável êxtase infantil. Quando já impaciente dava as costas, lá ouvia o barulhinho das chaves e gritava o seu nome tão intensamente quanto corria em sua direção. Aquele abraço era tão importante quanto o calor do sol pra mim. Após beijar o seu rosto luminoso de suor. Sentia os meus lábios deslizarem um no outro com o óleo que recolhia. Uma vez ungida pela sua essência, descia de seu colo, abria a sua bolsa e avistava a marmita de lata enrolada num pano e, ao lado, o saco de pão quentinho abafado. Constância, certeza, sustento Sol, suor, calor e pão São ritmos, sentidos e sentimentos que de ti carrego desde então.