A Benção à vó Lindaura:
Índia, morena e formosa.
De panturrilhas torneadas e canelas lustrosas.
Com a saia de viscose na altura dos tímidos joelhos,
que só sentada no sofá, a catar feijão, podíamos vê-los.
Minha linda avó Lindaura com seus coques e saiotes,
Dos tempos que viúva respeitada,
não sorria aos holofotes.
Não aprendera a ler mas sabia precisamente das horas.
Em sua caderneta, tinha anotado, das dívidas, cada centavo.
Seu guarda-roupa cheirava Alma de Flores.
Sua penteadeira, forrada com um paninho de linho engomado, parecia um altar!
Cada objeto tinha o seu exato lugar e razão de estar:
Um pente, um sabonete, um creme Shen;
Um lenço branco bordado e um retrato de seu bem,
Uma caixinha de madeira maciça com um feche de dobradiça;
Na tampa, uma gravura de flor pintada
Dentro, além dos botões, uma solitária e preciosa noz-moscada.
Na caixinha de música, a bailarina deslizava a sua dança;
Bem ali diante de mim, no altar sagrado da infância.
Mas minha avó entoava cantos melodiosos carregados de uma dor profunda;
Com os cotovelos pousados no parapeito da janela às vezes suspirava:
- ôô Deusss...
Naquela época eu já podia sentir o pesar daquele suspiro,
mas não podia compreendê-lo, era ainda menina.
Hoje, já não sou mais menina minha vó.
Agora já sei que nem sempre a alma é de flores
Somente agora, que conheci as dores,
É que posso reconhecer tua história, tua luta, teu luto;
E te pedir a tua benção pr'a maturar o teu fruto.
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