Hoje é Dia do Escritor.
E eu? Nunca nem sequer me achei digna de ser chamada assim. Nunca contei com essa possibilidade na minha vida.
O dia em que minha caixa de livros chegou, eu a abri e vi vários exemplares com meu nome na capa, empacotados em pilhas de 20 em 20... suei frio. Minha felicidade era proporcional ao meu medo.
Outro desafio foi o meu primeiro autógrafo:
“Quem sou eu pra dar autógrafos?”
“O que vou escrever?”
“E se me escapar uma palavra errada?”
“Minha letra é horrorosa...”
Foi bem difícil silenciar os pensamentos intrusivos.
Além de tudo, eu não tenho uma história parecida com as que costumo ler nas biografias de escritores — aquelas que falam de uma infância recheada de livros.
Nasci em uma família de pais com baixa escolaridade. O primeiro (e único) livro infantil de que tenho lembrança de ter entrado na nossa casa se chamava Chuva, o qual me lembro com muito carinho, este livro só chegou porque fazia parte da lista de material escolar do primeiro ano.
Meus pais não mediam esforços para investir na educação das duas filhas. Estudamos em escola pública, mas sempre tivemos material do bom e do melhor.
Só o hábito da leitura é que eles não puderam nos dar, porque tampouco possuíam.
Quando eu tinha uns 9 anos, assistia à novela O Diário de Daniela, no SBT, e me encantei com a ideia de escrever um diário.
Eu já tinha um — acho que ganhado de aniversário: capa acolchoadinha, páginas decoradas como papel de carta, um cheirinho inesquecível e aquele cadeadinho com uma chavinha característica.
Resolvi que ia escrever nele minhas emoções, como fazia a Daniela da novela. E foi daí que começou meu infortúnio.
Minha irmã mais velha fez o que hoje sei que é esperado (mas na época, eu não sabia):
abriu, leu e contou pra minha mãe. Fui punida por escrever sobre meus sentimentos.
Naquele dia eu descobri que escrever sobre emoções não era seguro.
Na escola, adorava as aulas de português. Era de lá que vinham as histórias, os versinhos e as poesias que me acalentavam. Também adorava as atividades de escrita, que davam espaço à criatividade que me habitava.
No entanto, na hora de mostrar minhas histórias fantásticas, sentia que as professoras estavam mais preocupadas em encontrar os erros ortográficos do que em se encantar com a fantasia.
Entregava os textos cheia de entusiasmo. Mas, quando recebia de volta — cobertos de correções em caneta vermelha — entendi que, para o mundo, escrever certo importava mais do que escrever com encanto.
Passei anos e anos com a mão em silêncio. Mas os pensamentos... ah, esses nunca consegui silenciar.
Só me lembro de ter retomado a escrita na época em que morei em Dublin, onde vivi muitas emoções.
Mais tarde, com a chegada do Bento, emoções ainda mais profundas vieram à tona.
Não tenho dúvidas de que minhas emoções sempre foram guias para a minha escrita — e a minha escrita, remédio para as minhas emoções.
Tive muitos motivos para não escrever.
Tive medo de publicar.
Tive medo de ser chamada de “escritora”.
Mas hoje entendo que escritora não é quem carrega um título — é quem transforma palavra em ponte, dor em cura, história em semente.
Escrever, pra mim, é um ato terapêutico.
E, mais do que isso, é um ato revolucionário.
A escrita não é mais um privilégio de poucos, como foi por tanto tempo.
Ela precisa estar ao alcance de todos — especialmente daqueles que, como eu, cresceram acreditando que esse lugar não lhes pertencia.
E é justamente por isso que escrevo.
Pra abrir caminhos.
Pra mostrar que há espaço.
Pra dizer, com todas as letras, que todo mundo tem o direito de ser.
Essa é uma das minhas missões de vida: fazer da literatura um território de pertencimento, cura e liberdade para todos os que nela, assim como eu, encontrarem refúgio.

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