Era uma vez, uma fada ferida que condenou com um olhar a menina que dançava ingenuinamente nua na frente do espelho. Desde então, a menina se trancou no alto da torre do castelo até esquecer-se que o movimento do seu corpo era a sua força mais pura e divina. Mas o sonho de bailarina, de si mesma nunca pôde esconder.
Passou grande parte da sua vida buscando formas aceitáveis de dançar. Disseram-na para não mexer demais ou quadris, a cintura e o busto e ela acatou tudo que a pudesse tirar, mesmo que parcialmente, da Torre em que tão cedo se colocou.
Um dia, a menina cresceu e soube que à noite haveria um grande baile. Então, ela colocou um vestido vermelho de godê, ajeitou no cabelo uma flor de crochet e aventurou-se a fugir da torre para dançar secretamente. Mas assustou-se ao entrar em contato com uma parte sagrada de si. Conheceu a sua força venusiana que a todos envolvia. As pessoas faziam roda em sua volta para sentir os seus movimentos, o seu sorriso e a sua espontaneidade.
O seu corpo era conduzido pela mesma força que conduz a correnteza dos rios, o germinar das sementes, a rotação, a translação, a revolução.
Enquanto dançava, sentia-se em parte na Terra e em parte a flutuar no infinito vasto. Transcendeu o tempo e o espaço.
No entanto, com o nascer do sol, a menina, mesmo já crescida reviveu o olhar da fada e, assustada, novamente trancou-se na Torre.
Ela passou ainda mais alguns anos de sua vida evitando entrar em contato com o que era mais divino em si. Mas o universo precisava que a sua dança orbitasse com todos os planetas e as galáxias. Por isso, preparou a ocasião ideal para que a mulher, que a menina se tornou, transcendesse o tempo e o espaço e pudesse lhe dar a mão e o abraço que a menina paralisada na frente do espelho sempre esperou.
As duas choraram de alegria em sintonia perfeita com o Todo.
Agora já não havia condenação e elas fluíram no infinito presente também conhecido como felizes para sempre.
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